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Um perfil adequado para Ministro das Relações Exteriores na Atual Conjuntura

Um perfil adequado para Ministro das Relações Exteriores na Atual Conjuntura

Após a definição do nome de Aloysio Nunes para o cargo de Ministro das Relações Exteriores, alguns canais de mídia especularam se ele era habilitado, se a escolha de seu nome foi coerente, ou se deveria o cargo ser ocupado por alguém dos quadros do Itamaraty, ou seja, se, para garantir um perfil técnico, não era mais adequado que o Ministro fosse um diplomata de carreira.

Desde que correram os rumores de que José Serra poderia sair, já no final do ano passado, houve várias especulações sobre nomes do meio político, dentre eles o de José Aníbal e o de Cristovam Buarque, que foi citado em bastidores logo após a renúncia de Serra, além do de Aloysio, claro, sendo este o mais cotado desde o início, exatamente pela sua notória capacidade e constante envolvimento com o tema das relações exteriores, bastando, para comprovar, que seja consultado o seu vasto e expressivo currículo na área.

Quanto à coerência da escolha, também se esperava que fosse alguém do PSDB, algo que não trouxe surpresas. Surpreendente seria se o escolhido do meio político viesse de outro partido. Sendo assim, resta esclarecer por quê, neste momento da nossa história, é realmente mais adequado que tal função ministerial seja ocupada por uma liderança política e não por um diplomata. Para tanto, deve-se trazer à tona outras questões para explicá-lo.

O cargo de Ministro das Relações Exteriores está muito além da compreensão dos políticos atuais e de parte expressiva dos cidadãos brasileiros. Talvez isso se dê por culpa do sistema político falido que temos, que vem deseducando o cidadão e os líderes no entendimento do que é a cidadania e do real papel dos funcionários do Estado, membros do Governo. Nesse aspecto, Aloysio Nunes preenche bem o cargo, já que ele tem o entendimento correto do que se espera de um Chanceler.

Ser Ministro das Relações Exteriores significa mais que ser um porta-voz do país, ou ser uma personalidade que representará o Estado Brasileiro no mundo. No meio diplomático temos um quadro excepcional no Itamaraty capaz disso, uma vez que ele é formado numa das mais respeitadas Academias de Diplomatas do Mundo, o Instituto Rio Branco, tanto que se pode dizer que há uma escola brasileira de Diplomacia. Mas a questão está em ser Ministro e não em ser Diplomata.

A função de Ministro das Relações Exteriores exige outras características além da capacidade diplomática e o entendimento da diplomacia. Exige a capacidade de entender as políticas públicas brasileiras; ter condições de participar das suas formulações, com conhecimento da arte político-burocrática e da montagem de estratégias, mesmo que não a esteja fazendo no momento; e, mais além, exige capacidade de perceber as estradas e caminhos que devem ser construídos e/ou preservados com os demais Estados do Mundo, para que as necessidades do país possam ser supridas num ambiente em que o relacionamento externo pode contribuir, ou atrapalhar.

Após anos recebendo atenção do mundo, quando tivemos o nome do Brasil realmente cogitado para ocupar uma Cadeira Permanente no Conselho de Segurança da ONU, diante de uma especulada proposta de reformulação deste Órgão das Nações Unidas, vimos na última década a perda da importância internacional do país, sendo reduzido nosso papel ao de coadjuvante em vários espaços e negociações, isso quando não fomos simplesmente ignorados.

Assim, além de ser obrigado a recuperar nossa economia, reequilibrar a sociedade, recuperar as instituições, o atual Governo tem o dever de restabelecer o respeito internacional pelo Brasil e, nesse sentido, a capacidade de seu Ministro das Relações Exteriores será essencial, necessitando ele, além do conhecimento de relações internacionais e qualidades para entender a formulação das políticas públicas brasileiras, ter conhecimento do meio político e condições de transitar com proficiência nas esferas da burocracia e das instituições políticas brasileiras, sendo essas habilidades outros conhecimentos “técnicos” imperativos.

Ademais, para aquele que exerce tal função, apenas se esmerar em pensar no aspecto do trabalho diplomático poderá gerar a redução da diplomacia brasileira perante o mundo. Paradoxalmente, do próprio status dos quadros diplomáticos do país dentro do Gabinete Executivo, mesmo que um de seus representantes esteja ocupando o mais alto cargo no que se refere à toda a comunidade envolvida com relações exteriores.

Tal afirmação, por estranha que seja, ocorreria porque esta situação reduziria o papel deste diplomata assumindo o cargo de Ministro das Relações Exteriores ao de cumpridor do planejamento feito por outros Ministros, já que a formulação de projetos e a idealização de políticas públicas vai além da inteligência, do brilho intelectual ou da inventividade de alguém, tem de levar em conta a capacidade de articulação política do Ministro e, no caso de um diplomata, ela está, neste momento de crise, mais limitada que a de alguém vindo de outra esfera do Estado, mais limitada que a de alguém vindo do Legislativo, por exemplo.

Na atual conjuntura, o Ministro ter vindo do Congresso foi mais adequado pelo fato de que é necessário alguém que tenha trânsito dentro das Casas que o compõem, um ambiente que devora os que sabem a seu respeito apenas por leituras, pelo conhecimento de teorias, ou por visitas esporádicas, mesmo porque, como dizem os criadores de fábulas e metáforas, as salas de visita do inferno são tão agradáveis quanto vários lugares do paraíso. A diferença se vê quando se mora nele. O que ocorre lá dentro necessita de um tipo de conhecimento conseguido apenas na prática. Não há cursos sobre isso, nem leituras que possam cobrir a realidade deste ambiente de relações e tramas de poder.

O Ministro terá de participar da formulação da política externa dialogando sobre as possíveis falhas estruturais que possam existir no bolo das demais políticas públicas e quais as condições reais dessas serem aprovadas no Legislativo. Ele tem de apresentar ainda capacidade de agir com força suficiente para opinar sobre a configuração adequada das nossas relações exteriores, bem como se a política externa proposta pode ou não ser reduzida a determinado aspecto, principalmente diante do quadro atual das relações internacionais.

Por essa razão, ele necessita ter força e voz ativa para mostrar os pontos nevrálgicos naquilo que está sendo identificado pelo Governo como as demandas prioritárias no país e as articulações internas necessárias, bem como vigor para opinar sobre o que considera como a mais adequada expressão do diálogo da sociedade brasileira com o mundo, apresentando suas percepções ao debate dentro do Executivo para se chegar a uma política externa equilibrada e eficiente.

Isso é mais que o cumprimento de uma política pública, ou mais que uma ação diplomática, é uma ação de estratégia, já que a política externa precisa ser pensada na dimensão do Estado e, exatamente por essa razão, o Ministro tem de ser apto a transitar nesta esfera da formulação estratégica, com ampla capacidade de articulação política, e tendo respeito neste espaço.

Nesse sentido, na atual conjuntura de crise econômica, política e institucional do Brasil, foi correta a escolha de Aloysio Nunes para o cargo, tanto pelas suas qualidades, como, principalmente, por estar dentro da lógica de que a presença de um Chanceler vindo do Legislativo apresenta maiores condições de auxiliar na restauração do respeito do Estado e da Sociedade brasileira perante o mundo.  Essas são as cosias que permanecem.  

Os governos passam! 

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