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Erro no Oscar de 2017 revela a confusão mental pela qual passam os EUA

Erro no Oscar de 2017 revela a confusão mental pela qual passam os EUA

A cerimônia de entrega do Oscar é considerada um dos maiores eventos do globo, sendo um dos únicos que consegue ultrapassar a assustadora marca do bilhão dos espectadores. Por si, isso já demonstra a importância que ela carrega, independentemente dos fatos associados ao cinema norte-americano, como sendo responsável pela divulgação de uma cultura e uma civilização que tinha inicialmente um ideário de liberdade e respeito pelo ser humano, mas foi se transformando e passou a ser o canal de disseminação de uma de cultura da violência, individualismo, hedonismo e indiferença à dor alheia em prol do triunfo. Em síntese, deixou de ser um meio de divulgação das mensagens de sonhos e esperanças para se tornar um canal formador de personalidades egoístas e egocêntricas.
No entanto, apesar dessas críticas pesadas, outros dizem que produziu obras de arte dignas de serem guardadas na Arca do Fim do Mundo, para preservar o que de grandioso a humanidade criou enquanto conseguiu não estragar tudo o que lhe foi dado ao longo de sua existência. Além, claro, de ter gerado consciências interessantes para o crescimento coletivo. Por exemplo, especialistas afirmam, inclusive, que foi Hollywood quem apresentou (os mais críticos dizem que criou) a fase do desenvolvimento adolescente da personalidade humana, quando mostrou ao mundo os dramas e sofrimentos de jovens que não eram mais crianças e nem eram ainda adultos, por isso, tinham dramas próprios que necessitavam ser vistos, ouvidos e entendidos, gerando direitos e formas de agir em relação a eles. Bom…, como tudo tem pelo menos duas perspectivas, acabou impondo também uma estética non sense, um tipo de consumismo e uma nova destruição da paz alheia, pelo excesso de direitos sem inclusão de responsabilidades. Mas…, isso faz parte do processo de esclarecimento da humanidade. O que importa é que o cinema norte-americano, por questionado, ou questionável que seja, tem sua importância dentro da história da humanidade. O que nos interessa, neste momento, é tentar entender o que aconteceu na entrega do Oscar de 2017.
Foi uma cerimônia carregada de constrangimentos, não pela gafe final, isso não é nada, mas pelo conjunto da obra, o que revela o stress mental em que está o povo americano e, mais curioso ainda, a inabilidade de sua elite contemporânea. O evento mostrou, desde o início, que desejava ser uma obra de combate político. Não que isso devesse ter sido excluído, mas, de todas as coisas que não se pode perder, uma delas é elegância. Ao criticarem o novo Presidente, não houve sutileza, mas um campo de batalha aberto, reduzindo a literatura e o cinema a apenas uma de suas funções: ser uma arma. Ou seja, não se exclui que a literatura e o cinema sejam instrumentos para o combate daquilo que consideramos errado, o que se exclui é que, para tanto, haja um rebaixamento daquele que usa estas armas, mesmo porque a literatura e a sétima arte são também escolas, filosofias, crenças e sonhos, além de armamentos.
Por isso, jamais saberemos se os vencedores estrangeiros foram premiados porque seus trabalhos expressaram a mensagem correta e tiveram o primor técnico que garantem a sua posição de laureados, ou se foram premiados para dar um recado ao novo Presidente. Há formas mais dignas de se lutar pelo que é certo, pois não se combate uma injustiça, cometendo outras. Tal suspeita sempre virá à tona, pelo fato de que o Evento começou mostrando contraposição direta ao novo Governo. Assim, ficará em suspenso se toda a cerimônia não foi apenas um palco para combater alguém que até hoje não se sabe se o povo queria ou não na Casa Branca. A premiação da arte… foi secundária.
Da mesma forma, vimos ações que transitaram entre “o que é isso!!?” e “realmente, conseguiram ir além do ridículo!!!!”. Paraquedas minúsculos com doces caindo nos colos de pessoas usando trajes de milhares de dólares. Nada contra o rico ser rico, pelo contrário, devem ficar cada vez mais, o problema é que ninguém notou que o traje exigido não combina com doce puxa-puxa de geleia, ou açúcar (sabe lá Deus o que era) e não havia o menor sentido. Estavam querendo encher o bucho dos convidados por falta de comida no coquetel?
Pior, para comprovar que a Oficina que tinha maravilhosos Alquimistas deixou de ser uma fábrica de sonhos para se tornar uma indústria de vaidades, fizeram um tour de turistas que não sabiam que iam até a entrega do Oscar (se isso foi verdade mesmo!), para que eles vissem de perto o que acontecia naquele santuário mágico, talvez em sua única chance da vida.
O que tal coisa significa? Que ali estão os escolhidos, a espécie superior? Mas, ali não estão pessoas que vieram de todos os lugares e se tornaram quem se tornaram porque trabalharam, lutaram e acreditaram em seus talentos? Ali não estão apenas pessoas que foram até o fim nos seus sonhos e representam apenas que todos nós temos condições, desde que não desistamos? Não é isso que se divulga?
Pois bem…, não foi o que se viu. Chegaram os “comuns” que foram colocados lá sem saber e foram usados para vender ao povo que os deuses podem ser vistos de perto e tocados pelos mortais. Acrescento que, se foi verdade que não tinham conhecimento, então devem processar a Academia pelo uso de suas imagens, vestidos de forma simples, num ambiente de gala. No fundo, foram tratados com condescendência e humilhados.
Nesse momento, mais um constrangimento, humilhante. Ao perguntarem a uma senhora negra quem era o ator que gostava, ela apontou e disse: “aquele cara, ali”. Era Denzel Washington. Ele riu e achava que era suficiente, mas o apresentador o chama e diz que ela pode tocar nele. Poucas vezes um ator tão renomado conseguiu mostrar como precisa treinar muito para uma atuação. Sua expressão facial foi de irritação e falta de vontade; sua expressão corporal de hesitação e impaciência. Poderia ter representado uma pessoa…, digamos… agradável. Acreditamos que ele seja capaz disso, já até ganhou um Oscar por mostrar saber fazer de conta que é o que não é! Depois, o mestre de cerimônias, percebendo a bobagem de colocar humanos com imortais e que humanos andam lentamente e não voam, começou a apressar quem estava lá atrás, quase empurrando. Até agora me pergunto o que quiseram fazer com esta parte do evento! Será que quiseram dar um outro recado ao Trump, algo como: “Estás vendo? Como você pode impedir a imigração? São esses iludidos que pagam as nossas contas”.
Mas aí veio o pior, o momento final, quando ocorreu a tão disseminada gafe. Na entrega do prêmio para o melhor filme, por erro do ator e diretor Warren Beatty, a renomada atriz Faye Dunaway anuncia o vencedor errado. Eles sobem e começam discursar. Pessoas correndo atrás deles informam o erro. Neste momento, Jordan Horowitz, o produtor do filme premiado erradamente (La La Land), que já havia discursado, interrompe quem estava falando no momento e comunica a todos que o vencedor havia sido outro. Alguém entrega o papel a Beatty e este, enquanto o segura, tem a folha arrancada de forma bruta de sua mão por Jordan Horowitz, que mostra a todos, como se estivesse provando que foi vítima de um crime. Errar é normal, acontece. Já ocorreu outras vezes, e este não foi o constrangimento.
Até o momento, poucas pessoas falaram do absurdo de um rapaz de 36, olhar com cara de ódio e quase agredir um homem de 79 pela sua falha, diante de mais de um bilhão de pessoas e quase humilhá-lo pela falha que teve. Talvez esse jovem e brilhante deus queira ignorar que este senhor tem um Prêmio que ele quer conseguir (poderia até ser seu professor) e conquistas que dificilmente ele conseguirá em sua vida, como ter sido, juntamente com Orson Welles, os únicos profissionais nos EUA a serem indicados no mesmo ano para receber o Oscar como ator, diretor, produtor e roteirista. Isso, por duas vezes, em 1978 e 1981, já Welles, apenas uma, pelo filme “Cidadão Kane”. Mas o currículo é de menos e não se está contando figurinhas para ver quem tem mais condições de completar o Álbum. O ridículo é ver como este jovem será um modelo para outros jovens do mundo inteiro, uma vez que estão olhando apenas o seu trabalho em La La Land, mas não o seu comportamento.
Creio que foi a cereja do bolo. Como dito acima, uma das últimas coisas que alguém pode perder é a elegância e o erro do homem poderia ter sido corrigido com um exemplo de como os tais deuses devem se comportar, sendo um modelo para os homens, mas…!
E aqui temos um problema maior, quando Trump foi eleito, o que se esperava é que ele fosse submetido a atuar dentro de normas e que as instituições sociais e políticas conseguiriam mostrar quais são os seus limites, obrigando-o a responder ao que o povo quer e pela forma como as instituições determinam, mas não pelo que ele quer. Em síntese, que há limites aos arroubos dos governantes.
O que o Oscar nos mostrou foi que a sociedade americana está confusa e seus líderes se autodiminuíram por não entenderem no que consiste ser um líder: mostrar com comportamentos porque têm o direto de definir formas de abrir caminhos e pavimenta-los e, por serem entendidos pelo povo, poderem apontar as direções, seguindo na frente com o dever de desvendar as armadilhas, de forma a preparar os que lhe seguem para que não sofram as agruras que possam vir no horizonte.
 
Pior, com o show de indelicadezas apresentado, talvez tenham caído na própria armadilha e, ao invés de dar uma lição em Donald Trump, podem ter mostrado ao mundo que os opositores do Presidente são apenas uma outra coloração do mesmo lado da moeda. Se assim for, então os EUA estão sem freios sociais contra os arroubos dos líderes petulantes e não será surpresa se sua sociedade tiver diante de si, mais uma vez, o fantasma da decadência. Em todos os momentos em que o fantasma surgiu ela conseguiu se reconfigurar e vencê-lo. Fica em aberto se hoje ela entende o que está diante de si e se terá pessoas capazes de se tornarem verdadeiros líderes.

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